GNR aponta descoordenação da Protecção Civil em Pedrógão

09 ago, 2017 - 22:10 • Paula Caeiro Varela

Falhas nas comunicações, patrulhas a actuar por conta própria, desconhecimento do local do posto de comando e ausência de ordens para cortar a estada nacional 236-1 são algumas das conclusões do relatório final da GNR ao incêndio de Pedrógão Grande, que provocou 64 mortos e mais de 200 feridos.

Um oficial de ligação da GNR que não encontra o posto de comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Este é apenas um dos episódios revelados pelo relatório final da Guarda Nacional Republicana à tragédia de Pedrógão Grande, conhecido esta quarta-feira (leia aqui o PDF).

Mas há mais. Um comandante distrital de operações que durante cerca de duas horas – entre as 19h55 e as 22h00 – nunca teve conhecimento de que o incêndio estava perto da Estrada Nacional 236-1. A GNR que até às 22h00 daquele fatídico 17 de Junho nunca recebeu qualquer indicação sobre a necessidade de cortes de trânsito. Patrulhas que andaram, literalmente, às cegas. Comunicações que falharam, uma e outra vez. Aconteceu mesmo, assim, em Pedrógão Grande.

O relato é feito pelo Oficial de Ligação da GNR destacado para a zona do incêndio que começou em Escalos Fundeiros. Quando primeiro chegou ao Posto de Comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil, naquela localidade, eram 18h29. Estavam dois comandantes de bombeiros e “mais quatro ou cinco pessoas com o colete da Protecção Civil”. A descrição prossegue com um sublinhado que deixa transparecer a azáfama no local, quando refere que esses elementos estavam “atarefados com a gestão do pessoal envolvido no combate ao incêndio”. Tão atarefados que não lhe deram grande atenção, a avaliar pelo relatório final do inquérito da GNR.

O relato do major Santos traduz-se desta forma no documento divulgado esta quarta-feira pela ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa: “dado que não lhe foi solicitada qualquer colaboração, deixou o seu contacto telefónico e informou que ia para a zona do incêndio”, contou o militar.

Cerca de uma hora depois, voltou a passar pelo local onde estava instalado o Posto de Comando para – e são mesmo estas as palavras que constam no documento – verificar “que o mesmo já lá não se encontrava”.

Foi pelo telemóvel que o major Santos voltou a saber onde parava o Posto de Comando, através de uma chamada do 2º CODIS (Comandante Distrital de Operações), às 19h37, para informar que tinha sido deslocado para o parque municipal de Pedrógão Grande. Aí chegado, o major Santos tentou contactar as patrulhas, mas não conseguiu: “os rádios apenas funcionavam de forma intermitente” e, pelo que pôde constatar, passava-se o mesmo com os comandantes dos bombeiros.

O relatório final do inquérito da GNR confirma que os períodos mais críticos nas falhas de comunicação registaram-se entre as 19h34 e as 21h12 e entre as 22h30 e as 02h00.

Patrulhas às cegas, sem ordens da Protecção Civil e sem comunicações

As dificuldades de comunicação duraram até fim da tarde de domingo, 18 de Junho, conforme consta de anteriores relatórios já divulgados.

Não é preciso adivinhar o que aconteceu durante essas horas, porque o Major Santos declara sem margem para dúvida: “face à falta de comunicações, as patrulhas passaram a movimentar-se sozinhas, ajustando-se à evolução do incêndio”, e – mais à frente – “a patrulha de trânsito, em virtude do incêndio se estar a aproximar do nó de Troviscais no IC8, sem que tivesse recebido ordens superiores, porque as comunicações via rádio não funcionavam, deslocou-se para o nó do IC8 com a EN 236-1”. Onde, acrescente-se, não estava nenhuma patrulha.

Os factos apurados pela GNR deixam muito claro que entre as 20h16 e as 21h10 não estava qualquer patrulha no nó do IC-8 com a EN 236-1, e que até às 21h44 o trânsito em direcção a Castanheira de Pera nunca foi cortado.

A GNR já tinha dito que nunca recebeu indicação de perigo naquela estrada, mas agora acrescenta um dado. É que o Comandante Operacional nesse período – o período que coincide com a morte de 30 pessoas naquela estrada – também não sabia: “o 2º CODIS, comandante operacional no período entre as 19h55 e as 22h00, nunca teve conhecimento que o incêndio estava perto da EN 236-1”.

As conclusões reforçam esta ideia de que até às 22h00 a descoordenação entre as várias forças no local foi evidente, quando referem que as primeiras instruções recebidas pela GNR para regularização e corte de trânsito por parte da Protecção Civil foram dadas só por volta dessa hora. Nessa altura, o comando de operações tinha sido assumido pelo 2º Comandante Nacional, Tenente Albino Tavares, ao mesmo Major Santos, oficial de ligação da GNR.

E afinal, a GNR indicou ou não a EN 236-1 como alternativa?

A ministra da Administração Interna afirmou que “do inquérito da GNR não resulta que qualquer elemento desta força de segurança tenha encaminhado qualquer viatura para esta via”.

Da leitura do relatório não resulta porém nada tão taxativo. Nas conclusões, a GNR diz apenas que não se provou de forma objectiva que algum dos militares da guarda o tenha feito e, na parte que diz respeito a factos não apurados, refere-se que não foi possível confirmar a alegação de uma testemunha que declarou que ela própria e o marido foram encaminhados para a EN 236-1, por um militar da Guarda, entre as 20h00 e as 21h00 de 17 de Junho.

Artigo disponivel em "Rádio Renascença"

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